Os mesmos clichês

Houve uma pausa e minhas palavras se calaram por algum tempo. Um ano que o coração não enfrenta o peso de uma folha em branco. E aqui estou eu novamente. Parada em frente ao cursor que pisca e me pede para dizer que tem saudades. Me guardei por todos esses dias e a única coisa que eu não queria era escrever os mesmo clichês repetidos. Mas eles estão sempre aqui, esperando a oportunidade. 

E se repetem. Com novos rostos. Disfarçados. Quando menos se espera, atropelam seus dias. Então eu respiro, porque já vivi tudo isso. E digo que desta vez não vai dar. Que eu estou calejada demais para ouvir o coração chorar. Junto dois ou três caquinhos. E vem o silêncio. Faltam as palavras. 

 

Sobre resiliência

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Arquivo prório

Na maioria das vezes que me pus a escrever, falei sobre sentimentos ligeiramente globais. Eu nunca falo explicitamente de mim. Apesar de teimar e continuar escrevendo mesmo com vergonha da exposição. Eu não falo abertamente sobre o que sinto. Jogo flores sobre sentimentos comuns. Faço perguntas perfumadas as dúvidas que todos nós temos.  Eu delicio a alma em romantizar os textos, sem que falem abertamente de amor. Mas pela primeira vez senti vontade de romantizar a minha vida, mesmo sendo um monólogo.

Eu senti vontade de abrir meu coração porque a tempos não o faço e chega um momento que bate saudade. Como as vezes sinto falta de um amor que não existe, de um olhar que não encontro. Há os que digam que escolho demais e que terminarei sozinha. rsrsrsrs Pode ser verdade, mas ainda estou com a sensação que continuo no caminho certo. É difícil recusar os convites para jantar quando suas amigas estão casadas, tendo filhos e você ainda na antiga vida na casa dos pais. Não é que seja ruim ou eu não tenha construído outras coisas. Tenho uma carreira (inicio de uma carreira) indo de vento em polpa. E, graças a Deus, entre umas e outras lágrimas, como amo o que faço. Como este trabalho me transformou como ser humano. Pelas habilidades que tive que desenvolver e pelos amigos que me escolheram.

Aprendi a ser racional, a mulher que sentimentalmente nunca fui. E, olha, deu certo. Tem dado certo. E, engraçado, esta foi uma das coisas que aprendi. Estou onde estou. No aqui, presa ao hoje. Um dia de cada vez e a palavra mais corporativa que aprendi vem sendo um mantra na minha vida: Resiliência. Respira, vai passar. Um, dois, três, a gente se distrai com outra coisa. E sempre passa. A minha ansiedade e meu medo foram trabalhados corporativamente. rsrsrsrs Não é incrível?! Aliados a minha fé que, mesmo que tropece nos meus erros, permanece de pé.

E não entendam errado, esta não é uma súplica a Deus por alguém que venha completar os meus dias. Não é um desabafo tardio de frustração e medo de ficar só. É um agradecimento e um reconhecimento. Ao contrário dos que tem a fé pequena sei que estive até aqui sozinha porque eu era capaz disso.

Primeiramente eu precisava. Um longo período na quarentena até que chegasse o momento da dúvida “eu consigo de novo?”. Até que não se saiba mais como foi a última vez que tocaram meu coração. Até que eu olhasse minha vida se repetindo até cansar, até cansar das vidas que se repetiam no meu olhar.

Depois, eu aprendi a esperar. É clichê, brega e fora de moda, mas quero uma pessoa para sempre. Duas almas que se completam. Valores, fé, vida. Sou adepta do vai demorar e vai ser para sempre. Ainda agradeço a Deus por, mesmo que virtualmente, eu esteja sendo inundada de casamentos felizes isso não abale meu coração. Isso não torne o meu coração cheio de mágoas ou frustração. E não cause ansiedade aos meus sonhos a ponto de querer realiza-los porque minha idade diz que já seria a hora. Eu não abriria mão do meu pra sempre por ansiedade. Eu não seria feliz se não fosse para sempre. Eu não alimento os meus sonhos com algodão doce.

No mais, tenho me distraído…

Sobre as verdades

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Não venha conversar comigo sobre as coisas que deveriam ser perfeitas. Elas não são. Eu não tento mais ser. Mudei. Não há felicidade na alegria amarrada e calculada da maioria das pessoas. No medo que a maioria tem de fazer o que condena nos outros. No abraço que esconde sentimentos, pensamentos e verdades. Nas fotos compartilhadas para dizer o que não dizem as vontades. Me poupei de tentar ser feliz e decidi fluir. Como é libertador. Não existe um dia que eu não me deite inteira e nenhuma manhã que não acorde revigorada. Não escondo meus erros, nem falo demais sobre o erro dos outros. O aprendizado é individual, é pra dentro, é solitário.  Existem dias em que tudo isso se torna questionável: as verdades, a cumplicidade, a troca. Como também a ausência de todos estes sentimentos e a solidão. É assim que a vida segue. Entre uma interrogação e outra, alguns fingem ser feliz, outros desistem de fingir.

Preguiça

  

Ando com preguiça das pessoas. E de repetir comportamentos, falas, assuntos. Ando com preguiça das conversas mornas, que não passam de dois parágrafos. E que se repetem e não tem qualquer profundidade. 

Quando o amor não vem

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Tenho uma imensa admiração por aquelas pessoas que, podendo brincar de amor, escolhem andar inteiros sozinhos. Sem o peso de estar “tentando” acertar. E não tem nada a ver com “está cada dia mais difícil alguém que queira algo sério”. Muitos querem. Poucos se encontram.

O coração já a algum tempo não perde o ritmo, o estomago nem de longe acolheu borboletas, não tem vestígios no olhar, na fala, nas palavras. Mais difícil do que se jogar em um amor é reconhecer quando ele simplesmente não veio. Não aconteceu. O sorriso não brilha, falta palavras no olhar. E não me perguntem o que deveria ser, eu também não sei.

Continuo acreditando que tudo tem seu tempo para acontecer, mesmo que não seja o tempo em que a maioria dos nossos amigos já tenham casado. E eventualmente balancem bundinhas de bebê por ai.

Partir, nem sempre é esquecer

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Ainda me pergunto para onde foram todas as pessoas que se passaram na minha vida. Pessoas com as quais dividi um pedaço da minha história, algumas vezes anos e anos. Pessoas que simplesmente partiram ou que simplesmente continuaram, sem mim. Não falo apenas dos namorado que se foram, mas dos amigos que perdemos quando a vida nos da tantas tarefas que nos afasta de algumas pessoas queridas. A amiga dos 9 anos que hoje mora em outro estado, a amiga dos 14 anos que ainda mora aqui, mas parece que moramos em países diferentes. Aquela pessoa que cuidou, trocou faldas, abraçou e beijou tanto. Alguns amigos de escola, onde se trocou tanta vida, tanta experiência, os da faculdade, dos empregos. Os amores, os professores. Para onde foram essas pessoas? Na maioria das vezes esta pergunta tem resposta, outras só ficaram as lembranças. E a vida, ainda assim, nos ensina sobre a continuidade das coisas. Sobre como todas estas pessoas, contribuíram pra o ser que sou hoje. Agradeço as histórias que construímos juntos, os corações que permitiram que eu fizesse morada, os braços que me deram abraços, os ombros que me deram consolo e todos os sorrisos que dei com a alma. Em silêncio agradeço cada vida que tocou a minha vida e, por um instante, ficou. Partir nem sempre significa esquecer.

Bater asas no desconhecido

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Tenho lembranças de como desejei e planejei um futuro que parecia tão distante aos 12 anos. Metade das coisas que acreditei estar vivendo hoje ainda não se concretizaram, mas todo o resto aconteceu sem que eu precisasse planejar coisa alguma. Sou grata por toda realização não planejada que aconteceu em minha vida, por todas as vezes que mesmo sem eu sonhar, Deus me concedeu milagres. Eu ainda acredito em milagres, nas pessoas, no amor. Uma pena que ao mesmo tempo que crescer nos encha de possibilidades, apague sem timidez alguns encantos juvenis. Meus dois pés vivem 99% do tempo colados ao chão, segurando firme o meu coração em um terreno seguro. Sou feroz, intensa, chata e as vezes até grossa, mas na mesma medida transparente, honesta e verdadeira. Não carrego segredos, costumo aceitar minhas escolhas sem grandes pesares. Aprendi a me arrepender e continuar vivendo, porque aprendi a recomeçar, me recriar, me transformar. Eu aprendi a pedi perdão. Os anos trazem a alma leveza, sem necessidade de tanto imediatismo, sem necessidade que a vida aconteça ontem. A gente se aceita. Do jeito que é. E passa a celebrar com gosto saudoso a vida, a gente admite o inevitável, deixa de ciscar o chão batido, pra bater asas no desconhecido.

Sobre a maturidade

Despenteei os cabelos, despi ideias. Pendurei minhas certezas todas no armário. Aprendi a deixar as coisas acontecerem ao seu tempo, sem atropelos. E ser, naturalmente. Excesso de planos e roteiros, tornam a vida burocrática. Falta tempo para deixar que a vida nos surpreenda. Faltam olhos que enxerguem leveza, um coração que converse no silêncio.

Mas talvez a falta de planos nos torne passivos diante da nossa história e nos traga apenas o que der, sem grandes méritos. Passamos a caber no que nos é concedido. Humilhante. Existe um ponto de equilíbrio entre estas duas vias, entre deixar as coisas acontecerem e todos os planos que temos para ontem. Este ponto de equilíbrio, nos é presenteado com o tempo e podemos chama-lo amigavelmente de maturidade.

É esta maturidade que abraçamos a noite quando não temos certeza do amanhã, e que mesmo sem certezas faz nosso coração dormir em paz. É esta maturidade que faz a gente acordar sem planos, entardecer maravilhados com a vida e deitar a noite felizes, mesmo sem motivo aparente. É esta maturidade que aceita e respira tranquila o agora como dádiva e sábia não questiona o porque que dos acontecimentos, agradece.

Descompassos

Nasci mal criada demais para caber em entrelinhas, para sufocar ausências e bastar-me de comodismos. Também nasci orgulhosa demais para insistir em sentimentos. Não sei se devo chamar orgulho, ou se por ventura, mais apropriado, deveria chamar de outro nome qualquer, onde fique claro que acredito na leveza do que vem para ser, intenso. O descompasso do meu peito, não tem ritmo para repetir refrão. Ainda assim, tenho sonhos malucos de um ser normal. Gosto de ir a livrarias e me pegar pensando que eu seria feliz morando ali. Em meio a tantas palavras, tanto sonho, tanta poesia. Eu também seria feliz na praia, repenso. Onde todos os sonhos se renovam, como ondas. Onde os acordes do mar silenciam qualquer pensamento. E o sol, como um carrasco, escreve em nossa pele lembranças, que volta e meia se apagam. Nasci transparente e feroz. Mas sem síndrome de Gabriela, amansei sentimentos, domei comportamentos. Tenho entrega nas mãos e um dom no coração. Escrever sempre foi consequência de sentir.

 

Respirar vazios

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Eu aprendi que o pulso de um poeta tem que escrever no ritmo do coração. E sentir e imaginar e viver. Aprendi que sonhar não requer esforço, requer paixão. Colocar um pé na frente do outro não é amar a vida. Aprendi que os que amam demais e em excesso não são fracos, mas vazios de si mesmos. Aprendi que é legal mudar a cor do cabelo, das unhas, a maneira de se vestir. Mas aprendi também que todo mundo tem que parar uma vez na vida, respirar fundo, repensar sua história. Parar. Tem um momento que a gente precisa se esvaziar dos outros e com leveza fechar o coração. É preciso respirar sempre e muito nossos sonhos, nossos medos, nossas esperanças. Plenitude é esse sentimento solitário que nos completa, que nos acalma e deixa a vida fluir sem certezas. Porque a gente passa a deixar a vida fluir. Sem exigências, sem pressa, sem medo, sem proibições. A gente aceita que não tem o controle da vida, e respira, tranquilo, os vazios.