Um vazio, um vinho.

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Hoje me abracei com uma garrafa de vinho, sozinha, para preencher meus vazios. E numa reflexão, tentei olhar para dentro. E pouco a pouco a gente vai se conhecendo, reconhecendo. Olha para aqueles passos já marcados, pra tristeza velha conhecida e se debruça sobre questionamentos intermináveis.

Eu olhei fotos, voltei as páginas do meu blog, recordei as memórias e percebi a quanto tempo eu venho vivendo sempre para caber na expectativa de alguém. O quanto meus passos foram marcados pelos meus medos, o quanto eu sempre quis caber naquelas histórias.

A verdade é que independente de qualquer coisa eu sempre vou sofrer todas as perdas. Mesmo que não sejam perdas. Porque depois de todo sofrimento e trauma eu continuo com meu coração no mesmo lugar.  Um peito mais calejado, um orgulho mais feroz, um medo mais intenso. Minha maturidade me impede de sofrer como quando tinha 14 anos, nem por isso dói menos. Tenho um pouco mais de sobriedade nas palavras, um descontrole mais leve, embora minhas saudades sejam intermináveis e nem sempre minha próprias palavras me tragam o consolo de que preciso. Mas de alguma forma vou cabendo na história que vivo. As nossas obrigações impedem que o sofrimento faça uma morada maior. O que de certa forma é um alívio e um conforto.

De certa forma, mesmo que eu não tenha sido a mulher mais madura, tenho orgulho da forma como conduzi meu sofrimento em todas estas vezes: como alguém que tem um coração. Minha mão ousada escreveu e descreveu sobre a minha dor muitas vezes, mesmo que através de palavras de outros escritores. Não fingi que nada estava acontecendo, não fingi felicidade e muitas vezes fiquei vulnerável por ser sincera. Uma pena que hoje sofrer por amor tenha um sentido tão pejorativo.

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Se construir, junto.

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Então li em algum lugar “mais forte que ontem”. Parei um pouco e pensei, “mas amor não é questão de força”.  Amor é questão de amor. Não se esta melhor, pior ou mais forte. Sofrer o fim de um relacionamento não é vergonhoso. Por vezes vejo pessoas querendo mostrar como “estão bem” e como “o mundo gira”, como “foi ele que se deu mal”. Acho que sofreríamos menos olhando para dentro, sem se importar tanto com a próxima foto (e por que não indireta) que vai se postar no facebook ou instagram. O mundo agora é uma ilusão virtual que tudo vai bem, enquanto sangram corações na calada da noite.

Algumas vezes precisamos parar de fingir o que se sente, desarmar a alma, esquecer as dores do passado, os traumas, as frustrações. Como vejo meninas publicando frases sobre homens galinhas e como isso fizeram que elas endurecessem seus corações, como agora elas “aprontam todas” com os homens também. Seria cômico se não fosse trágico. Corações partidos, querendo revidar a dor no primeiro que passar, porque “agora eu me vingo”. E o amor se transformou nessa confusão.

Não existe mais verdade, simplicidade, olho nos olhos. Sinto falta de quando tinha 14 anos e me apaixonei pela primeira vez. É tudo tão intenso quando se tem 14 anos. Ele era o amor da minha vida e como era tão mais fácil e simples dizer isto. Como era mais fácil acreditar no amor. Sofrer sem vergonha da dor, sem orgulho. Aos poucos ficamos calejadas de sofrer, é verdade, e talvez a gente perca oportunidades de viver um “amor de 14 anos” porque a gente tem medo agora. Não justifica eu sei. Mas não vemos mais ninguém dispostos a ir mais fundo, a lutar pra superar as coisas, a dar a mão e atravessar uma dificuldade. As pessoas se machucam, se ferem, agem sem honra e depois de tudo querem alguém “leve”, que venha sem “trauma”. Acho que é por isso que vemos casais com idades tão diferentes, “balanceando” o peso da relação. E o amor durando cada vez menos, trocando de rosto cada vez mais.

Eu ainda acredito no amor. Acredito que duas pessoas possam se amar sem medo, sem jogos nem adivinhações. Eu acredito que amor não é isso de vir inteiro. É se construir junto.

“alma mole vida dura, tanto bate até que cura…”

 

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“Não adianta estar em outubro, meu amor, lembrando que se foi tão mais feliz em abril” Marla de Queiroz

Quantas vezes não cabemos no agora e desejamos voltar no tempo, adiantar o tempo, fugir do tempo. E perdemos de entender a beleza e importância de cada momento de nossa vida. Tenho desejado florescer em lugares inusitados, em situações que antes eu achei que não me cabiam. Eu assumi um compromisso comigo de me surpreender uma vez que seja de tempos em tempos e fazer aquilo que sempre achei que não faria. Comer verduras, ser madura, pular de paraquedas. Não importa o quê.

Decidi me encontrar com alguém especial sempre que deito: meus sonhos. E não quero que eles acabem assim que acordo. Depois de muito “alma mole vida dura, tanto bate até que cura…”  Respeito tudo que aprendi sobre mim nestes últimos tempos, sejam minhas fraquezas, certezas, minhas loucuras. Aprendi sobre loucura com uma pessoa nada convencional, que todos dizem “ser doido” “fumar uma”, a não olhar tão cheio de certezas para nada, o mundo precisa de um olhar menos convencional. É isso, ser menos convencional, mais louca. Tenho sido louca ultimamente por mim, pelas minhas vontades, por ser feliz. Tenho sido menos convencional e não tenho tido tanta paciência nem tenho dado tanta morada pra falta de amor e brilho nos meus dias. Ao menos uma coisa tem que ser especial cada dia, ao menos meu olhar por mundo que seja. 

Desejo que eu escute mais meu coração e menos a opinião alheia, que meu orgulho, medo e insegurança morem numa caixinha apertadinha a quilômetros daqui. E todos os dias que minha mente me repita: “vamos ser felizes hoje?!” eu diga “Sim! Hoje, amanhã e sempre…” Que eu aprenda a ser feliz independente do tempo, das flores, das cores, dos amores.

Que eu entenda verdades simples e universais como “as vezes vamos sofrer por amor” e mesmo assim eu não insista em morar na tristeza, que eu escute uma ou duas coisas que eu não esteja preparada e ainda assim saiba continuar de pé. Que eu ame meu trabalho para que eu não precise trabalhar nenhum dia. Que eu faça amigos eternos e aprenda a amá-los e respeitá-los como são, e acima de tudo que eu saiba pedir perdão sempre que erro.  Que eu não durma demais, mas possa cochilar a tarde num sábado. Que minhas relações familiares sejam mais leves, meus amigos mais amores, e meu amores mais paixão. Que eu tenha a quem amar pro resto da vida…